sábado, março 11, 2017

Sobre sentimentos, intimidade e jogadores que "não conseguem lidar"

Era sábado. O jogo já estava rolando com o mesmo grupo a uns três meses. Religiosamente, todo final de semana. O Gustavo narrando, duas jogadoras e três jogadores. O grupo todo era de elfos do espaço, estilo spelljammer. Campanha longa que começou com o personagens se recuperando de um acidente de nave, sem memórias.
O contexto é pouco importante, o que importa é que os players conviviam a um tempo razoável. E que nessa de recuperar memórias referencias à campanha anterior (que havia durado pouco mais de um ano) foram aparecendo.

A personagem da outra jogadora tinha um - como dizem esses jovens - 'crush' (NPC) e eventualmente aconteceu a cena em que eles ficaram sozinhos trocando confissões e memórias do passado a cena podia, ou não, se encaminhar para um beijo e algo além e me parecia importante para definir a relação dos personagens saber como se comportariam a respeito dessas possibilidades. Me parece que a jogadora parecia interessada em fazer a cena, um pouco sem jeito mas interessada.
A mesa foi acometida de uma inquietação extrema, em especial por parte de dois jogadores. Rindo e fazendo piadas. "Vai", "Não vai", "Pegadora", "mas fulano não era seu filho adotivo?", falação que atravessava a cena, cortava o clima e deixava a jogadora sem jeito. As descrições foram substituídas por um "tem beijo sim" muito resumido.

Digo abertamente que se fosse eu jogando eu ficaria chateada. Os guris não gostam de cena fofa? Paciência, eu fico quieta e deixo eles jogarem seus combates, sequestros e eventuais torturas. Acho que se comportar na cena dos outros, por mais que ela não seja interessante, é o minimo. Uma coisa é eu ter vergonha de detalhar a cena por não estar confortável, tudo bem, resume e pula. Outra coisa é eu querer fazer a cena e não conseguir porque o grupo não consegue lidar com um beijo. 

segunda-feira, março 06, 2017

Playing Experience - Vasthara Alyae

Art by len-yan

Esse jogo começou com três jogadores. Aconteceu que um personagem morreu no terceiro ou quarto jogo, o respectivo player acabou saindo da mesa. 
Nesse evento eu me vi em uma mesa que tinha apenas duas jogadoras e cheguei a conclusão que era o momento de chamar outra jogadora.
O resto da campanha foi só com o narrador e jogadoras, mesmo quando tivemos participações especiais, sempre jogadoras.

Interessante porque eu sempre quis jogar um jogo só com garotas. Desejo atendido, eu também conheci o lado ruim dessa segregação.

Vamos falar da Vasthara. 

Vasthara é uma Wizard/Incantatrix. O jogo começou no nível 7 (quando os drow fazem seu ordálio e viram adultos) e minha personagem terminou no nível 13. Muito longe do que eu pretendia mas... faz parte. Pelo lado bom, essa campanha teve começo, meio e fim. A história ficou bem fechada e muito interessante.

Vasthara é a afilhada mais velha de Imrae Alyae. Sua mãe Miz'rey Alyae desapareceu em uma missão quando as filhas eram crianças. 
Junto com as irmãs, Maya e Ilyra, e as primas Anastrianna e Simikei (filhas da Khaless Alyae), Vasthara é mandada para as fronteiras de UndrekThoz, onde a pequena família Alyae pretende estabelecer sua primeira cidade
Parte do jogo é sobre as relações com as outras famílias da região e a complexidade politica de se estabelecer uma casa na sociedade drow.
Elkira, Belgos e Dan Alyae em edição especial de natal que foi
presente para o grupo. Arte da Sandra Messias.

Cada uma dessas personagens vai para a nova cidade com um guarda costas (e potencial "mate" já que é meio esperado que tenham filhos, ou não. O jogo teve várias conversas interessantes a respeito do matriarcado). Esses NPCs eram controlados pelas jogadoras durante o combate mas o narrador que os controlava o resto do tempo e fazia as falas deles.

Eu gosto de jogos com muitos NPCs (minha experiência diz que, no geral, as jogadoras gostam mais de NPCs do que os jogadores), na verdade eu posso ficar assistindo os NPCs agirem e quase não jogar, se bobear.
Resumo em dizer que eram três figuras interessantes; Elkira é um barbarian surtado, Belgos é um Lolth Touched que foi expulso da academia arcana levando alguns outros drow consigo no processo e acabou virando rogue e Dan é um guerreiro arqueiro bem sucedido comparado aos outros dois.
Uma peculiaridade da casa Alyae é que seus drow tem sangue de fada, a fundadora da casa era uma Gloura meio drow que tem trabalhado para aproximar a família, e os drow, da corte unseelie (minha personagem em uma campanha que jogamos anos antes). Com isso a família ganhou várias características feéricas, muitos dos seus membros tem asas, DR/ferro frio, spell like além das normais dos drow etc.

Uma parte do jogo era sobre controlar os machos malucos que estavam com o grupo. Amei, o Belgos era totalmente doido, imune a medo e inteligente. É o tipo de desafio social que eu gosto. A Vasthara estava mais interessada em outros NPCs, mais certinhos da cabeça, mas acho que chegamos em um acordo sobre isso. :P
Em um momento do jogo a Vasthara mandou uma carta para o Belgos, porque apesar dele morar na casa em frente conversar não era fácil, e a resposta veio rápida, acida e publica... incompreendido ele, tadinho.

Outra parte do jogo era sobre fazer alianças, em estilo Game of Thrones, já que eramos uma casa fraca, em ascensão e logo descobrimos que tínhamos um inimigo particularmente interessado em nos destruir (e os motivos só viriam no final do jogo). No meu ponto de vista as garotas foram tão 'normais' nisso quanto os caras. Sobrevivemos a coisas bem tensas mas fizemos bem poucos amigos, ainda matamos uns e sacaneamos outros no processo de sobreviver... faz parte, drow.
A Vasthara trouxe uns Armgo para a cidade, que acabaram se mostrando realmente uteis e no fim foram, de certa forma, a melhor aliança em alguns momentos, especialmente por serem uma família maior e mais intimidadora. Foi sorte, Vasthara os convidou por puro interesse no guerreiro não maluco e amigável deles, admito.

Sobre a experiência de jogo (ou, o ponto desse post):

Divulgação: Drow Treachery card by Mike Faille
Copyright Wizards Of The Coast LLC
Foi divertido. Muito divertido! 
Foi extremamente confortável jogar só com as meninas, muito. 
Ao contrário do que eu esperava ainda houve alguma inquietação para lidar com as relações dos personagens mas, de forma mais ou menos explicita, acredito que todas as personagens fizeram o que tinham que fazer. Cada um ficou sem jeito, do próprio jeito, nas próprias cenas sem que a intervenção do grupo atrapalhasse a possibilidade da cena. Em outro post eu conto o caso sobre isso que rolou no grupo misto e me incomodou muito.

Eu sou a pessoa chata que fica nervosa e ansiosa e atravessa o RolePlay dos outros. Foi mal! 
Isso só acontece porque o envolvimento com o personagem e com a situação é mais profundo que matar, pilhar, coletar XP e comprar item. Hurray!

Vasthara não conseguiu ter um bebê durante o jogo. Eu tentei.

Acho que para um jogo que envolvia administrar uma cidade esse jogo deu uma ótima sensação de lugar crescendo, causa e consequência e organização pública.
Na ultima sessão eu fui surpreendida com a possibilidade da Vasthara se tornar matriarca da família na região. A avó dela, e então matriarca, foi morta e Vasthara era a filha mais velha, da filha mais velha (no começo do jogo nos rolamos as idades das irmãs). Foi legal. 

sexta-feira, março 03, 2017

Sasayaki

Arte by Guweiz
Em roupas negras e já sem os mons é chegado o momento de uma última caminhada por Otosan Uchi, em direção ao portão norte. Deixar a inner city já revela contrastes que ela não observava a muitos anos. Sua rota faz um leve desvio, a noroeste há um pequeno distrito governado pelo Escorpião. Ali esconde-se um templo à Hofukushu, onde a samuraiko entra a passos ligeiros para rapidamente ajoelhar-se diante da estátua de estética sinuosa tipicamente escorpiã.


- O-Hofukushu-sama, por favor guie a minha jornada. Que os inocentes sejam poupados da minha ira para que ela possa recair toda sobre aqueles que compartilham o sangue e os modos de Mirumoto Onai. Eu não devo esquecer, ou perdoar, até que seja feita justiça que apazigue meu espírito.


Ela cumprimenta a estátua três vezes, em uma reverência que leva a testa até o chão, oferece um tablete de incenso, passa alguns instantes ali juntando daquelas forças que precisa para levantar e continuar uma viagem que será longa e desagradável. Após um último cumprimento retira-se em silêncio.


… … …


Chove, a água pesa nas roupas e parece tornar as cordas do waraji cada vez mais apertadas, ou talvez sejam os pés que estejam inchados da longa caminhada. As pernas doem. Já úmidas algumas mechas de cabelo escapam do jingaza. Era uma água fria que deixava as vestes  pesadas aumentando o fardo da carga. Estava cansada, odiava estradas. Se lembrava da sensação que teve quando criança, ao perder-se na estrada esperando voltar para casa depois de ‘fugir’ de Kyuden Bayushi. Fora resgatada por um bushi naquela ocasião. Naquela ocasião era uma criança do Escorpião.
Agora… sabe-se lá o que era agora. Um ronin cortesão pareceria apenas uma piada. Não importava o que quer que ela fosse e o que quer que fosse fazer, sabia que teria que fazer sozinha. Às vezes sentia-se tola, seu pedido para deixar o clã custava caro e lhe tolherá todas as possibilidades de uma viagem confortável. Ainda assim, sabia que havia feito uma escolha que era apenas sua, não queria ajuda. Outra parte de si ainda encontrava conflito entre proteger o Crane, ao deixá-lo para trás como havia feito, ou valer-se do dinheiro dele para alcançar o que desejava. Embora houvesse conflito, a decisão já estava feita, e o Crane não poderia ser implicado em o que quer que ela fizesse agora… nem o Escorpião.


Além do jingaza a água caia como uma cortina densa o bastante para nublar as formas da estrada. Os joelhos fraquejaram, tudo doía, conforme o corpo pendeu a mão foi obrigada a levantar-se encontrando apoio no tronco áspero de uma árvore. Doeu.
Virou-se apoiando as costas na árvore. Trazendo a mão junto do rosto via um arranhão. Não sangrava como ela esperava. A pele antes delicada já tinha os calos e a textura esperada nas mãos de alguém iniciado nas ‘artes’ da espada.
Fitou a própria mão por longos instantes, esperando, sentindo arder quando a água da chuva escorria por ali mas, nada de sangue.


Hokora é um pequeno santuário, em geral fica a beira das
estradas nas proximidades de grandes santuários. 
Quando levantou o rosto pode avistar um hokora ao lado da estrada. Ela se aproximou uns passos para encontrar ali os símbolos das sete fortunas. A visão foi o bastante para colocar-lhe  o âmago em chamas.
Correu para junto do pequeno santuário com raiva e força que pareciam provir do jigoku. As mão apoiadas na base do telhado, ela empurrou. A pedra balançou mas não cedeu. Ela rangeu os dentes em um grito de esforço que certamente poderia ser ouvido ao longo da estrada, e insistiu forçando até jogar o telhado no chão.
Podia agora olhar as estátuas, de cima, sem ter que se ajoelhar na estrada, apontou-lhes o dedo de forma acusadora e firme:

-Vocês! Vocês me abandonaram e abandonaram a verdade. Vocês viram tudo e deixaram aquilo acontecer!

Chutou as estátuas derrubando parte delas conforme as lágrimas lhe tomavam os olhos e se misturando a chuva. Continuava a derrubar as estátuas com chutes menos enérgicos, menos violentos a cada golpe, mas incansáveis. Continuou até que todas as sete estivessem no chão. A decisão na voz aos poucos era substituída por um notável desespero durante esse trabalho:

-Vocês mentiram. Vocês não estão olhando nada… não se importam com nada…


Viu as estátuas espalhadas no chão, não havia sobrado nada para derrubar, nada para dizer, e ainda assim seus sentimentos não estavam em paz. Conforme perdia as forças do momento não conseguia mais aguentar o peso das roupas e da mochila molhada nos ombros, a dor nas pernas e pés. Sentava-se lentamente, sem a elegância de antes, com o corpo escorado no que havia sobrado do hokora. E chorava, chorava copiosamente esperando que as lágrimas pudessem carregar para fora tudo o que sentia. Mas elas não podiam…

As Sete Fortunas

sexta-feira, dezembro 23, 2016

R(PG)etrospectiva

Um personagem teve dor de barriga, o jogador achou isso tão ridículo que saiu do jogo. Eu entendo, talvez o Batman nunca tenha tido dor de barriga ou algo assim.
Mesma pessoa passa o ano reclamando que acha um monte de grupo mas todos tem problemas, de várias naturezas, e ela não consegue jogar em nenhum. Sai de todos.
Eu nem cogitei a possibilidade do problema ser ela e não os grupos. "Obviamente os problemas são os dados", já que alguns egos não sobrevivem a uma falha.

 

Ainda assim, esse foi um ano incrível RPGisticamente falando ^__^. Conheci gente nova e legal, algumas pessoas de anos atras também voltaram a jogar junto. 
Joguei com a Graci e com a Chai. Jogos novos (Savage Worlds) e jogos antigos (Storyteller). A campanha do Gustavo fez aniversário. Fizemos um grupo só com jogadoras (que esta maravilhoso \o/) Coletei mais de mil questionários, li um tanto considerável (que eu não vou chamar de muito) sobre probabilidade e game design. Narrei em evento, o jogo foi bom, minha habilidade de calcular o tempo da sessão foi péssima ¯\_(ツ)_/¯

Foi um ano de commissions muito felizes também. Conheci vários artistas novos que fizeram coisas incríveis pelos meus personagens.

Primeiro teve o Cody. Meu gangrel, não exatamente novo, o personagem surgiu a uns quatro anos mas agora que ele subiu no palco e esta tendo atenção, desenhos e jogo.
O crossover ai do lado tem tudo ha ver com os personagens, tanto ele quando a Red, e foi feito pelo BloodyAchimedes que eu super recomendo.







Claro que tem Cody pela Chairim também. Inclusive na HQ MareRosso dela :) orgulho do filhote.










Além disso teve L5R,. Asahina Yukihime continua uma das minhas personagens preferidas e eu tive a sorte de conhecer a talentosa Sandra, tem mais arte dela em Legendless Art.

Foi uma pessoa adorável de se trabalhar, comunicação ótima. Desenhos lindos em vários estilos e resultado incrível . D+!



E por fim, PagodaComics. Eu simplesmente adoro fazer encomendas com a Anticia. Gosto de tudo na forma como ela trabalha, sketches, pesquisa, o jeito de usar as referências, comunicação. Tudo!
Nosso projeto das quatro estações continua, lentamente mas continua.

Além disso, teve a Draconnasti, Simone, Jesse Rother, Jessica. Muito obrigada a todas pelos desenhos :)








Depois dessa retrospectiva breve; Ficam os meus votos de Feliz Ano Novo! Que todos encontrem bons grupos, bons jogos, que possam se divertir, curtir e rolar muitos sucessos, em on e em off, em 2017!!!

domingo, julho 17, 2016

L5R - Random NPC Fluffy Generator

As vezes um NPC não planejado é necessário e você precisa dar uma "vida" a mais para ele. As vezes você esta com preguiça de fazer um background mas o GM insiste que quer porque quer. As vezes você só precisa de uma ideia qualquer para iniciar o processo criativo.

Para esses momentos existe o NPC Fluffly Generator., com versões on-line e off-line.

Lógico que não é perfeito e eu particularmente desaprovo os cabelos coloridos, mas ainda assim é uma ferramenta simples que pode ser uma mão na roda em momentos de desespero.


quinta-feira, julho 14, 2016

One night stand

Eles não estavam juntos, nem mo mento mais próximo. Era um jovem querendo ganhar a noite e uma garota com sonhos distantes. Por um acidente dividiam o sake.

Yoshiro talvez fosse digno de alguma distinção se comparado aos ronins do Império, na verdade era alguém autenticamente mediano, não se destaca em estatura ou porte. Os cabelos escuros eram mantidos curtos e arrepiados, mostrando toda a rebeldia que um samurai sem estirpe conseguia demonstrar. Os olhos eram provavelmente a parte mais atraente, guardavam uma vivacidade matreira que poucas pessoas vivendo nas condições que ele normalmente vivia conseguiriam guarda. Ou talvez fosse só o brio do álcool. 

Taki seria bonita se pudesse cuidar disso. Os cabelos foram cortados mais do que seria adequado a qualquer mulher, eram bem negros e estavam secos, também a pele escurecida dos dias passados ao sol. Não se alimentava muito bem mas ainda guardava um contorno de formas agradáveis, nitidamente femininas. Tinhas as roupas mais simples do bando e um sorriso bonito, nesse momento estava realmente feliz. Depois de um trabalho bem feito tinha tomado banho, comido bem e, junto com Yoshiro, terminava a terceira garrafa de sake da noite.

-Você bebe, heim. Vou buscar mais. - Yoshiro reclamou meio rindo, tirando uns zenis do bolso como se estivesse rico.

Ela se levantou cambaleante enquanto ele caminhava para a porta:

-Vou junto. Hoje eu pago, ahaha.

Tentou alcança-lo enquanto ele saia. A mão deslisou pelas costas do rapaz dando-lhe um arrepio e ela desajeitadamente segurou o kimono, já solto, o suficiente para descobrir os ombros do ronin.
Ele se virou com uma cara brava encarando-a:

-Mas o que você ta fazendo, mulher?

Taki recuou um passo, pretendia se explicar mas o olhar se perdeu observando o peito dele. Yoshiro espera uma resposta uns instantes, ate ficar um tanto embaraçado com o silencio constrangedor:

-Ei. O que foi?

Ela levantou a mão tocando com os dedos no peito dele, junto do ombro, apontando uma marca em meio a um bom tanto de outras:

-Ficou uma cicatriz...

Ele olhou, respondendo:

-É, ficou. Talvez não tivesse mais uma se a vacilona ai tivesse lutado nesse dia.

-Se eu tivesse lutado contra Daidoji Tenshu-sama a unica diferença é que eu teria umas a mais também.

-Você sabe até o nome dele?!

Yoshiro parecia surpreso enquanto Taki se afastava, ele puxa o kimono de volta sobre o corpo escondendo a cicatriz enquanto ela responde:

-Claro. Como não saber? Não é todo dia que se vê um bushi daqueles, ele acabou com vocês três tão rápido, e ele era lindo. - Ela disse rindo.

-Que coisa horrível você falando assim de outro homem. Ele podia ter matado nós todos enquanto você ficou só olhando, né? Traidora, covarde ou ambos?

Ela da de ombros meio sem jeito, tinha seus motivos mas não achou que era hora de falar a respeito, apenas sutilmente quis mudar o objeto da conversa: 
- Podia, que bom que seu pai foi sábio em ter se explicado para ele, evitou o pior.

Yoshiro agora parecia aborrecido:

-Evitou, mesmo assim apanhamos muito e falhamos na missão. Mas você esta certa, a escolha do meu pai provavelmente salvou as nossas vidas. Ele é sábio, e esta me arranjando um casamento.

Ele levantou o rosto com ar orgulhoso enquanto Taki se continha para não parecer emburrada:

-Você vai se casar?

-Vou. Meu pai vai acertar tudo ate a primavera.  - ele parecia mais satisfeito com a reação dela, mesmo sem conseguir distinguir se o bico era ciume ou inveja. - E você vai continuar ai pensando em um samurai que não sabe seu nome? Ah, é... você não tem família. Bom, se você pedir direito quem sabe eu não ajudo, como irmão mais velho, a te arranjar um criador de porcos ou algo assim.

Ela suspira baixando a cabeça chateada. Yoshiro se agita para arrumar a 'brincadeira' se aproximando dela.

-Ei, tá, não precisa ficar assim. Você pode aproveitar enquanto eu ainda estou aqui. vamos pegar outro sake. 

Ele puxa ela junto e eles espiam para fora, visto que nem  Yoshitaka nem Yoshinori estavam ali os dois se aventuram pela casa de sake, rapidamente compram mais duas garrafas e voltam ao quarto sem mobília onde se escondiam do irmão mais velho e do pai de Yoshiro.

Voltam para se sentar contra a parede, a mente pesada do álcool.

-Você esta triste que eu vou embora?
-Um pouco.

-Minha noiva é linda e rica.

-Vai embora então.

-Vou ficar com você primeiro...

Aquilo soou inesperadamente sincero, nem era tão ruim considerando as expetativas até ali. Taki se virou de repente, tonteando do movimento rápido, ficando de joelhos na frente do ronin. Deu-lhe um beijo, curioso até, mas de pensamento distante, sabia que não teria as opções com as quais sonhava mas esse pensamento não era nada claro agora.



sábado, junho 25, 2016

RPG e a violência contra os jogadores


Quinta e Sexta foram dias bem perturbadores, em vários aspectos. Depois de conhecer um novo nível de idiota (no meu mundinho eu não tenho muito acesso a esse tipo de gente) eu achei que eu deveria escrever sobre as diferenças entre violência "física" contra em personagem de jogo (tipo quando ele é acertado por uma espada vorpal) e violência psicologia contra um jogador(a). 



Muitos GMs (homens nesse caso) não entendem que algumas coisas são perturbadoras para jogadoras/mulheres. Porque eles são homens, o foram a vida inteira e apesar de terem ganho o 'poder da empatia do jogador de RPG' (ou assim acreditam) não conseguem ver o outro lado e perceber que não estão sendo realistas, estão apenas sendo GMs RUINS por não saber lidar com a audiência feminina (ou com audiências de outras faixas etárias, mas esse assunto fica pra depois).

São GMs que esquecem que filmes, jogos, livros, etc, podem ser perturbadores e desconfortáveis mesmo não sendo 'reais'. Da mesma forma algumas cenas de jogo podem ser perturbadoras, algumas para mulheres, outras para homens.

Mas então porque as pessoas jogam? Conflito é parte do desafio e o jogo precisa de desafios para ser interessante: As pessoas reais as vezes querem uma 'perturbação' COGNITIVA (esse é o barato do jogo), mas geralmente não querem uma perturbação EMOCIONAL.

Em fim, eu achei melhor ler um pouco antes de escrever e depois de 2h cheguei a conclusão que não preciso escrever nada, já esta tudo escrito. Mas eu vou contar, bem resumidamente um evento (causo) de 2003.

Eu fui mestrar Vampiro para um grupo que não era o grupo com o qual eu costumeiramente jogava. Esse grupo tinha quatro jogadores entre 17 e 21 anos (eu tinha 22). Eu tinha jogado com esse grupo novo umas duas vezes, eles tinham um estilo totalmente diferente do meu, tínhamos uma questão de 'bairrismo' rolando entre eu e alguns desses jogadores e eles já tinham tido 'dificuldades' com umas namoradas que sentaram na mesa algumas vezes (note que isso é diferente de ser jogadora - a guria que não sabe nada e não esta nem tentando aprender, que esta lá 'esperando o namorado', a pessoa que passa as 4h da sessão perguntando 'o que eu rolo?' não é jogadora, ela esta jogadora naquele momento e depende do grupo e do mestre fazerem um bom trabalho para que ela SE TORNE jogadora).

Eu não lembro bem a aventura, foi um começo meio difícil mas eventualmente o pessoal se aclimatou, construímos aquela confiança minima que o jogador precisa ter no mestre para se permitir entrar no mundo (e aqui eu ressalvo, minha hipótese: uma jogadora confiar em um narrador provavelmente demora mais que o oposto), o meu jogo era totalmente diferente do deles. Rolamos os pontos de sangue iniciais e obviamente a noite começaria com uma caçada. Caçada para eles era sinônimo de rolar uns dados, olhar a tabela, descontar as horas gastas caçando, rolar mais dados e ver quantos pontos de sangue ganharam. Para mim... bem, pra mim envolvia toda a minúcia de 'onde você vai', 'o que você faz', 'quem você escolhe' e as consequências disso. E assim foi toda a primeira metade do jogo, em que os jogadores se espalharam e foram cuidar dos seus pontos de sangue cada um a sua maneira. Foi tenso, para uns mais que para outros, e essa tensão deixou o jogo divertido. O medo de ser visto, o receio de dar errado, matar ou não a vitima, fugir da policia, etc.

Um dos jogadores (o mais novo) decidiu que seu personagem iria a um strip club e levaria duas moças para casa. Ele me contou sobre o modelo do carro do personagem, suas roupas, classe, estilo, cobertura luxuosa etc. E eu fiz duas moças deslumbradas MAS que sabiam bem a vida que viviam, aptas a lidar com a efemeridade do luxo que na vida delas era passageiro. Fizemos conversinhas em on entre o PC e as NPCs eu notei que isso agitou a mesa, que silenciosamente ouvia tudo. Sim, eu tinha uma mesa de adolescentes e duas NPCs o quão elaboradas eu podia fazer naquela ocasião. Em fim o PC chegou em casa, acenou para o porteiro, as moças também acenaram, o carro ficou na garagem, a cena do elevador já ficou ruim porque a expectativa era que algo deveria começar a acontecer ali mesmo, mas perguntando ao jogador 'o que você faz' a resposta foi 'nada'. Subiram os três 19 andares em silencio no elevador de espelho gigante, e essa não era a expectativa de ninguém. E esse 'não faço nada' era a primeira dica sutil de 'essa cena esta ficando desconfortável' (e nem era um estupro). Eu não percebi. Sim, foi um momento mestre ruim.

Chegaram no apartamento, ele mostrou o apartamento a cena perdeu totalmente a fluidez que teve durante o carro, nessa hora eu percebi que os detalhes não eram necessários, eles podiam ficar a cargo da imaginação de cada um sem serem compartilhados com a garota que ninguém ali conhecia. Então eu perguntei de forma mais geral o que ele fazia. Ele ficou constrangido e só me dava respostas abstratas como 'faço o que tem que ser feito'. E eu fiquei super confusa porque eu não sabia se isso significava continuar com o programa como tinham combinado OU dar uma mordida em cada uma (e seria um plot separar as duas para morder uma sem a outra surtar) e sugar até desmaiarem. Eu perguntei mais umas duas coisas e ele ficou aborrecido, no fim perguntei 'você paga elas depois?' e ele disse 'só mando elas embora'. 'Só mando elas embora' me fez assumir que elas estavam conscientes o bastante para sair andando, sem serem pagas. Mais tarde ele foi sair de casa e notou que as moças tinham passado pela garagem e destruído o carro no melhor de suas habilidades mortais.

Uma parte do grupo riu, outra parte me fuzilou com o olhar e tivemos uma péssima conversa pós-jogo com direito a: 'nunca mais faça isso com o meu irmão' seguido de uma rolagem de intimidação que foi consideravelmente bem sucedida (eu nunca mais narrei vampiro para eles, apesar de alguns pedidos). Nunca ficou claro o que exatamente era o 'isso' do 'nunca mais faça isso', mas suponho que envolva constrange-lo com uma cena desconfortável e destruir o carro que, naquela ocasião, tinham um valor simbólico importante (para eles pareceu que depredar o carro foi birra minha, para mim era o simples fato de que 'escolhas precisam de consequências' e as NPCs estavam bravas por não serem pagas).

Note que eu não tinha uma birra com o player. Eu não tinha a postura pre-estabelecida de "na minha mesa, se um cara gostar de putaria as putas detonam ele". Não era algo tipo "ele é feminista, vou transformar a vida dele num inferno por isso". Foi o desencadear da história que, por inexperiência minha, e pela maturidade esperada de alguém de 17 anos, resultou em um jogo não divertido para ele.

Quando você coloca uma cena de violência, ou de estupro, na mesa (espero que você esteja jogando em um ambiente privado nesse caso, e não em uma game house) isso esta contribuindo para história ou você só esta embirrando com a jogadora? Se ela claramente diz que não quer isso no jogo e você insiste você esta sendo um mestre RUIM e uma pessoa RUIM. Você esta sendo alguém mais interessando em satisfazer seu lado sádico do que em tornar o jogo divertido. Você esta sendo alguém arrogante que acha que tem alguma 'lição a ensinar' para ela. Ou para dizer de forma simples, você esta sendo um babaca, não importa o realismo do mundo se existem elfos, ou magia, ou dragões, ou deuses, ou poderes, ou fichas e dados.

Alias, por falar em realismo, estou esperando ver um jogo em que rola um estupro e a família da moça, pai, primos, irmãos aventureiros, aparecem para dar cabo do PC estuprador, isso é bem realista também, mas seu realismo, e sua 'super empatia de RPGista', vão só até onde convêm, né?